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A história das Imperfeições Inventadas

  • Fernanda Galvão
  • 4 de janeiro de 2026
A história das Imperfeições Inventadas

​Por muito tempo da minha vida, fiz mau uso de coisas boas, naturais e orgânicas. A alimentação, que hoje tem um espaço muito amplo e especial na minha vida, já foi um ato extremamente complexo por um longo período. Na infância, ela ocupou um lugar de exageros e falta de limites. Na adolescência, transformou-se em distúrbio alimentar. Na fase jovem adulta, em medo, alergias, intolerâncias e nos remanescentes do distúrbio que nunca tratei.

​Acredito que fiz o mesmo com o sol. Eu o via como uma mola propulsora da aparência que eu queria ter, de saudável, e, no fundo, era isso mesmo: somente a aparência. Aos poucos, fui conseguindo enxergar as consequências de ter sido inconsequente: pintas novas, manchas, marcas que ficarão aqui comigo e as quais já tive muito desejo de apagar; mas, ainda que seja possível, a marca na minha memória seguirá viva. E o efeito físico da inconsequência, de acordo com a minha dermatologista, de quem tanto gosto, seguirá, ainda que hoje eu tenha outra relação com o sol.

​Quantas brincadeiras na praia já neguei para manter meu corpo estendido na areia? Quanto tempo desperdicei cronometrando os lados da minha “autosselagem” ao sol, como se fosse um pedaço de peixe numa frigideira quente? Quantos livros deixei de ler porque faziam sombra no corpo que queria deixar homogeneamente bronzeado?

​E tudo isso pela estética. Tudo isso porque escutei a vida toda que “mulher bonita era mulher bronzeada”, que “mulher bronzeada parecia mais magra”. Uma obsessão vinculada a outra obsessão: comida, sol, estética… tudo no mesmo balaio. Posso adicionar a ele a busca pela altura, porque “mulher bonita também era mulher alta, longilínea”. Quanto tempo desperdicei observando a altura de mulheres com quem eu convivia, pensando se, caso me dessem a chance de ser mais alta ou de corrigir minhas pernas “tortas”, qual das duas opções eu escolheria? As pernas tortas também foram outra marca reforçada do meu corpo imperfeito.

​Já não bastasse toda a pressão estética que eu vivia, na casa onde morava, de “herança” de um ex-namorado, fiquei com o complexo da “bunda feia”. Sim… ele me contou que, ao me conhecer, disse ao nosso amigo em comum que eu tinha um rosto lindo, mas que era uma pena não poder dizer o mesmo da minha bunda. Lembro de ter ficado em choque quando escutei e de ter dito o quão ofensivo era o comentário, e ele, rindo, respondeu que não era para eu me sentir mal, porque minha bunda tinha melhorado muito desde que nos conhecemos e que eu estava de parabéns.

​Quanta besteira… quanto tempo desperdiçado… quanta bobagem deixei entrar em mim. Bobagens que bagunçaram minha vida e das quais hoje cuido muito para blindar minhas filhas.

​Quem me vê não imagina que estas questões superficiais me rondaram por tanto tempo. Muitas vezes sinto vergonha por tudo isso… tantas questões muito mais complexas e necessárias de serem compartilhadas, e eu aqui, com futilidades, escrevendo algo de que me envergonho de ter pensado… Sofrendo novamente hoje por me cobrar, por não ter me posicionado, por não ter sido forte o suficiente para me blindar.

​E para cada uma das partes que erroneamente enxerguei como imperfeitas em mim, eu posso dizer o nome dos homens que “me alertaram” para isso. O peso que flutuava, a bunda feia, as pernas tortas, o corpo muito branco, que parecia mais “cheio”.

​Entendo hoje por que, na adolescência, me encantei momentaneamente por meninos que não tinham exatamente o perfil de pessoa que eu buscava: eles fizeram elogios e, para mim, era como se aceitassem minha imperfeição.

​Aos 24 anos, encontrei meu marido, que sempre foi muito cuidadoso com qualquer comentário sobre o meu corpo. No início do nosso relacionamento, fui “me desculpando” conforme fomos nos conhecendo melhor, por todos os meus pontos “fracos” físicos, imaginando que era melhor eu já assumi-los do que ele perceber sozinho. Falei da minha história alimentar, minha obsessão pelo sol, minha falta de bunda, minhas celulites, minha busca por parecer mais alta e que eu nunca usava saia ou shorts por causa das minhas pernas tortas. Me espantei quando vi que ele não concordava com nada daquilo… suas lentes eram muito avançadas. Claro, avançadas a ponto de enxergar minha alma, mas também abraçavam a minha parte física.

​Hoje fiz as contas e percebi que daqui a seis anos terei vivido mais tempo da minha vida perto das lentes avançadas deste homem. É com ele que escolhi dividir a vida. É com ele que escolhi ter filhas. Filhas que crescerão sabendo que o olhar mais importante será sempre o delas para elas mesmas, e que é dele que nasce a verdadeira liberdade.