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Esses dias, eu estava no banheiro da academia e escutei, involuntariamente, uma conversa entre duas mulheres. Uma delas estava eufórica — talvez por isso tenha chamado minha atenção — e a notícia que deu, da forma como deu, me rendeu muitas horas de reflexão: “Amiga, acredita que finalmente fui pedida em casamento?”. Enquanto eu ainda processava o contexto da frase, fui atingida por outra: “Eu ainda não estou com a aliança porque ele disse que já escolheu, mas que iria demorar mais um pouco para ficar pronta. Imagino que seja linda!”.
Fiquei me perguntando: onde estava a participação dela nessa decisão importantíssima de “juntar as escovas”? Como pode a mulher aguardar passivamente o momento em que o homem decide que irá, realmente, casar e então, romanticamente, ir atrás de uma aliança e pedi-la em casamento? Uma aliança vai acompanhar o dedo dessa mulher pelo tempo em que estiverem juntos, compartilhando a vida. Não é como escolher o melhor cacho de banana na feira. É um símbolo de união, uma joia com a qual a mulher precisa ter identificação. Ou seja, não pode ser uma escolha unilateral, assim como não deveriam ser unilaterais a decisão de se casar e o timing perfeito para isso.
Depois do pedido feito pelo homem e da iniciativa dele de escolher sozinho a aliança, vem uma enxurrada de outros eventos tradicionais que naturalizamos justamente por serem frequentes, mas que, a meu ver, pararam no tempo. O tal do chá de panela é um deles. Organizado pelas amigas da noiva — que às vezes parecem nutrir uma ponta de inveja porque a amiga finalmente realizou o “sonho” de muitas —, esse evento é composto somente por mulheres. Isso é equivocadamente interpretado por elas como algo revolucionário: um espaço reservado onde as casadas podem falar mal de seus maridos ou debater “assuntos de mulher” sem o julgamento dos parceiros.
Ali, elas inicialmente realizam brincadeiras que colocam a noiva em situações constrangedoras. Depois, presenteiam-na com panelas, utensílios de cozinha e de lavanderia, oferecendo dicas de uso baseadas na própria experiência. Em alguns eventos, acredita-se que presentear a noiva também com lingeries seria um ato de liberdade. Para mim, o chá de panela é como assinar um contrato declarando que todas as funções da casa — cozinhar, lavar a louça, lavar e passar as roupas, organizar —, para as quais ela agora está bem equipada pelas as amigas, serão de responsabilidade da mulher. Afinal, depois de fazer tudo isso, basta colocar a lingerie e ter um momento exclusivo com o marido — detentor do sobrenome que agora compõe o seu nome de casada — para sair do papel de “dona de casa”.
Se esse novo casal opta por realizar um casamento tradicional — o sonho de muitas mulheres, construído desde a infância com histórias de princesas indefesas e príncipes salvadores —, praticamente todas as tarefas dos preparativos também recaem sobre ela. Como algumas já devem ter ouvido de seus noivos: “foi você quem escolheu fazer assim”. Não à toa existe um termo inventado e muito utilizado para as noivas que surtam nesse processo: “bridezilla” (uma junção de bride, noiva em inglês, com Godzilla).
Na cerimônia religiosa, o discurso do líder cristão frequentemente é carregado de ensinamentos patriarcais: a mulher precisa ser protegida; o homem precisa ser o provedor. Já escutei inclusive, em um casamento a que fui, a liderança dizer textualmente que a mulher precisa ser submissa. Isso foi dito sem nenhum pudor, com a segurança e a tranquilidade de quem sabe que fala por muitos homens, em uníssono.
E, depois de um discurso que nunca deveria ter sido formulado para época nenhuma, vem o momento que muitos aguardam — não tanto pela emoção, mas talvez pelo tédio do discurso —, a famosa frase: “pode beijar a noiva”. O homem, insuflado por tudo o que viveu e escutou até ali, aproveita o momento para beijar a noiva, que assume novamente um papel passivo, sem voz. Um beijo não deveria ser construído pelo desejo mútuo? Não poderia ser “Podem se beijar”?
Por que não poderia ser: “Decidimos o modelo de celebração da nossa união e estamos juntos tomando as decisões que envolvem a cerimônia e a festa de casamento”? Ou então: “Queremos juntar as pessoas importantes da nossa vida e fazer um chá de panela onde receberemos, juntos, os presentes dados por homens e mulheres”? “Fomos escolher a nossa aliança”? “Decidimos nos casar”?
E depois, caso queiram ter filhos ou filhas, ainda vem mais um evento: o chá de fraldas. Seguindo exatamente o modelo do chá de panela, é mais um contrato assinado com uma cláusula explícita: a de que será de responsabilidade única e exclusiva da mulher trocar as fraldas do bebê, fazê-lo dormir e levantar de madrugada para acolher o choro. E por aí vai…