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Olhou-se no espelho ao acordar, num sábado, e percebeu seu rosto natural, livre dos artifícios que paralisaram não só seus movimentos faciais, mas também seu modo de expressar sua identidade.
Seu cabelo estava, da raiz à ponta, manifestando sua genética, sem qualquer intervenção de cor ou mudança no padrão de seus fios.
Sua alimentação tornou-se a mais viva e natural possível neste mundo aditivado quimicamente, no qual a crueldade animal é sinônimo de masculinidade.
Dos seus apêndices — aquelas amizades e laços familiares que apenas sugaram sua energia e sua cor —, ela finalmente se desprendeu. Foi como se um sensor interno tivesse despertado para medir o impacto nocivo da convivência.
Queria tanto ser aceita pelos outros! Esforçava-se tanto para isso, ainda que custasse abrir mão de tudo o que pulsava dentro dela. Hoje, seu olhar é para dentro. E, sendo assim, como um sol, passou a atrair apenas quem contribui e enriquece este olhar interior.
Sua voz, sempre presa dentro dela, baixa, ganhou força, potência e sensibilidade. Ela começou a cantar sem cessar, experimentando e acolhendo as múltiplas vozes que saíam de seu peito, represadas por uma vida de silêncios.
Seu corpo, que tanto sofreu pela rejeição que ela mesma impunha, agora era motivo de orgulho — não pelas formas, mas pela funcionalidade. A força e a agilidade estavam sendo trabalhadas praticamente todos os dias e ela percebia, em seu dia a dia rodeado de crianças, como foi fundamental passar a amá-lo e a cuidar dele.
Sua alma, que por anos suportou silenciosas perturbações para não incomodar os outros, estava finalmente em paz e desejando mais e mais evolução.
Estava mais perto de atingir seu estado de nascença, livre de amarras. Lembrou de sua vida e de tudo o que foi adquirindo e aceitando carregar nesses 45 anos. Máscaras diversas para escolher qual usar diante de quem, armaduras diversas para se defender, pedras nos bolsos das calças e do casaco, sapatos que não cabiam em seus pés e limitavam seus passos, roupas apertadas e sujas que impediam seus movimentos, cabelos presos em um rabo que fazia doer o couro cabeludo, óculos com graus errados e lentes sujas que a faziam enxergar um mundo imaginário. No bolso esquerdo, bem perto do peito, guardava a agressividade, o medo, a insegurança e a dor… e tudo isso ela foi deixando enquanto caminhava pela vida.
Naquele sábado, ela sentiu que estava, finalmente, nua e à vontade.