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Estado de nascença

  • Fernanda Galvão
  • 30 de maio de 2026
Estado de nascença

Olhou-se no espelho ao acordar, num sábado, e percebeu seu rosto natural, livre dos artifícios que paralisaram não só seus movimentos faciais, mas também seu modo de expressar sua identidade.

​Seu cabelo estava, da raiz à ponta, manifestando sua genética, sem qualquer intervenção de cor ou mudança no padrão de seus fios.

 

​Sua alimentação tornou-se a mais viva e natural possível neste mundo aditivado quimicamente, no qual a crueldade animal é sinônimo de masculinidade.

 

​Dos seus apêndices — aquelas amizades e laços familiares que apenas sugaram sua energia e sua cor —, ela finalmente se desprendeu. Foi como se um sensor interno tivesse despertado para medir o impacto nocivo da convivência.

 

​Queria tanto ser aceita pelos outros! Esforçava-se tanto para isso, ainda que custasse abrir mão de tudo o que pulsava dentro dela. Hoje, seu olhar é para dentro. E, sendo assim, como um sol, passou a atrair apenas quem contribui e enriquece este olhar interior.

 

​Sua voz, sempre presa dentro dela, baixa, ganhou força, potência e sensibilidade. Ela começou a cantar sem cessar, experimentando e acolhendo as múltiplas vozes que saíam de seu peito, represadas por uma vida de silêncios.

 

​Seu corpo, que tanto sofreu pela rejeição que ela mesma impunha, agora era motivo de orgulho — não pelas formas, mas pela funcionalidade. A força e a agilidade estavam sendo trabalhadas praticamente todos os dias e ela percebia, em seu dia a dia rodeado de crianças, como foi fundamental passar a amá-lo e a cuidar dele.

 

​Sua alma, que por anos suportou silenciosas perturbações para não incomodar os outros, estava finalmente em paz e desejando mais e mais evolução.

 

​Estava mais perto de atingir seu estado de nascença, livre de amarras. Lembrou de sua vida e de tudo o que foi adquirindo e aceitando carregar nesses 45 anos. Máscaras diversas para escolher qual usar diante de quem, armaduras diversas para se defender, pedras nos bolsos das calças e do casaco, sapatos que não cabiam em seus pés e limitavam seus passos, roupas apertadas e sujas que impediam seus movimentos, cabelos presos em um rabo que fazia doer o couro cabeludo, óculos com graus errados e lentes sujas que a faziam enxergar um mundo imaginário. No bolso esquerdo, bem perto do peito, guardava a agressividade, o medo, a insegurança e a dor… e tudo isso ela foi deixando enquanto caminhava pela vida.

 

​Naquele sábado, ela sentiu que estava, finalmente, nua e à vontade.