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Quando tive meu primeiro contato com o bolsonarismo, busquei entender quais eram as motivações e características de um movimento que arrebatava justamente as pessoas de quem eu mais divergia no convívio. Me deparei com palavras que, até então, nunca tinham feito parte do meu vocabulário político: patriotismo, família tradicional (heteronormativa), liberdade e Deus. A esses termos somavam-se outros, magneticamente atraídos, como anticorrupção, oposição a facções criminosas e armamento civil. Na prática, essas palavras eram usadas como balas de um revólver, miradas exclusivamente contra o Lula e o seu partido.
No entanto, à medida que o bolsonarismo se instalou, várias dessas bandeiras foram sendo derrubadas por suas próprias contradições. Vimos “patriotas” comemorando o resultado de eleições nos Estados Unidos e trabalhando arduamente por taxações que interferiram diretamente na economia do Brasil — o mesmo país que dizem idolatrar. A defesa da ‘família tradicional’, se analisarmos o histórico das lideranças do movimento, beira o ridículo. Só faz sentido se pensarmos nela como uma coleção de várias famílias sucessivas, vide homens em seu segundo ou terceiro casamento. Que fique claro: a vida privada de cada um e suas separações não me importam, pois cada um sabe o que vive. O descalabro real é usar a santidade da família como palanque moral e moeda política enquanto, na vida pessoal, não se pratica o que se prega. “Deus” virou um conceito específico, construído sob medida dentro de uma vertente evangélica que acolheu homens recém-convertidos, demonstrando pouca convicção religiosa e muito oportunismo político. E a “liberdade”, principalmente a de expressão, acabou deturpada para justificar toda e qualquer manifestação absurda.
As demais promessas, como o combate à corrupção, tornaram-se meras peças de coleção. De tempos em tempos, testemunhamos escândalos recorrentes envolvendo figuras no Senado, na Câmara dos Deputados, nos ministérios e na própria Procuradoria-Geral da República (PGR) e no STF. Eu achava que já tinha visto todas as incoerências que o bolsonarismo poderia nos “presentear”, mas a erosão dessa pauta é a maior de todas, justamente porque eles ergueram a bandeira da ética apontando o Lula como o único mestre nessa arte.
Esses dias, escutei uma pessoa comentar, ao se referir ao comportamento oportunista da família Bolsonaro: “Eu sei em quem eu não voto”. Essa frase e a construção desse pensamento me renderam dias e dias de reflexão. Entendo agora que a única bandeira realmente verdadeira e unificadora para eles é o ódio ao Lula e à sua defesa das minorias — que, ironicamente, somadas, são a grande maioria do país. Para evitar que ele esteja no poder, vale tudo, inclusive colocar alguém em seu lugar que seja comprovadamente corrupto. A grande ironia desse teatro moralista é que, na pressa de aniquilar o adversário, o eleitorado engoliu os mesmos crimes que jurou combater. O bolsonarismo não é uma ideologia; é um espelho invertido do antipetismo. Para eles, a corrupção só é imperdoável quando o terno do corrupto é vermelho. Mas sendo verde e amarelo…
Imagem feita por IA.