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Já foram quatro jogos até agora. No primeiro, confesso que estava um tanto desanimada; não me interessei por saber quem havia sido escalado. Tinha inclusive a impressão de que, mesmo se pesquisasse os nomes dos titulares, não saberia dizer quem eram, em que time ou posição jogavam. Estava também incomodada com a presença, que julgava (e julgo, hoje com ainda mais convicção) inútil do Neymar, uma pessoa que é referência para mim de tudo o que não se deve ser, pensar ou fazer. Aquele jogo morno, em que dormi durante 45 minutos do segundo tempo, fortaleceu alguns sentimentos que me levavam a uma desconexão com a Copa e à nostalgia ao me lembrar da época em que fomos campeões ou, mesmo quando não fomos, de ver craques como Ronaldinho e Ronaldo Fenômeno jogarem com toda aquela graça.
No segundo jogo o time cresceu, se fortaleceu no hemisfério norte e eu comecei a sentir algo diferente também aqui no hemisfério sul. Minhas unhas passaram a ficar destruídas depois dos dois jogos subsequentes, em especial o mata-mata contra o Japão. Experimentei, neste jogo, a surpresa de reagir de formas não muito reservadas, o que foge ao meu costume, assim como aconteceu durante o meu trabalho de parto sem analgesia. Os gritos vieram espontaneamente, as mudanças de posição no sofá por causa do nervosismo… ajoelhei, pulei, apertei quem estava do meu lado. Comemorei muito cada jogada bem articulada, ainda que não resultasse em gol, e chorei emocionada quando vi a rede balançar com os gols do Brasil.
Neste período todo de Copa do Mundo, pude ver a mobilização de pessoas indo assistir às partidas em bares com desconhecidos, ou na casa de alguém, numa reunião familiar ou de amigos. Hoje chego à conclusão de que eu não teria nenhuma condição de assistir aos jogos nesses moldes. Como a boa aluna que tentei ser, sentando sempre na frente para poder prestar muita atenção em tudo, não suportaria me perder do jogo para engatar em alguma conversa paralela, e me irritaria se tivesse que ouvir conversas de pessoas mais interessadas na convivência, na bebida e na comida do que na partida. Não gostaria também de perder este espaço de espontaneidade que, no meu caso, é um tanto restrito, pois não costumo me expressar assim em qualquer lugar ou com quaisquer pessoas.
Esta é a primeira Copa após a extrema-direita bolsonarista ter se adonado dos nossos símbolos nacionais: a bandeira e o hino. Algumas casas que, antes do torneio, já exibiam a bandeira — provocando meu incômodo e indignação —, agora estão mimetizadas às demais, que a exibem motivadas pelo futebol. As camisetas da CBF, eternizadas pelas imagens dos golpistas de 8 de janeiro, aos poucos estão sendo naturalizadas por mim. Mas o receio de ser confundida com uma extremista de direita ainda me impede de utilizar qualquer um desses símbolos, seja a bandeira ou a camiseta. Já o hino, confesso, me arrepia e emociona.