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O que você está disposto a aceitar? Esta é a pergunta que tenho me feito desde quando descobri que a família Bolsonaro pleiteava governar o Brasil. Ou seja, há pouco mais de oito anos esta é a pergunta que, para mim, não quer calar.
Desde a primeira eleição envolvendo essa família, avançamos sob o pretexto de que precisávamos relevar o voto de pessoas próximas como se fosse apenas uma posição política qualquer, um detalhe. Hoje, no entanto, é consenso: o voto reflete a nossa ideologia. E ideologia é o balizador das nossas decisões, a nossa forma de enxergar o mundo e de interagir com ele.
Intrigados, surpresos e decepcionados com essa escolha, ouvimos dessas pessoas apenas o que está na superfície: “votei pela economia”, “votei porque não gosto do Lula”, “votei porque quero mudança”, “votei pela segurança pública”… Mas o que está para além destes pensamentos localizados na superfície? Quais são as reais identificações dessas pessoas com os projetos da extrema direita? Será que elas já se fizeram essas perguntas?
Afinal, em nome da religião, aceita-se um plano fascista que destrói a vida dos povos originários, coloca o Brasil no mapa da fome e empurra os miseráveis e pobres para o precipício. Em nome da “família”, aceita-se o descaso violento com os grupos minoritários, a perseguição à diversidade de gênero e o ódio legitimado. Em nome da economia, aceita-se a “boiada passando” sobre as nossas florestas, a negação da ciência, a indiferença diante de centenas de milhares de mortes evitáveis. Em nome da mudança, aceita-se o armamento civil liberado, a corrupção e o flerte sistemático e escancarado com a ditadura.
Como olhar para essas pessoas da mesma forma depois de saber em quem elas têm votado? Como olhar não só para as que votaram, mas também para as que simplesmente se abstiveram da responsabilidade de se posicionar e lutar contra algo extremamente perigoso?
Escutei estes dias de alguém muito próximo, progressista, que um de seus amigos da oposição se disse aliviado no dia seguinte à vitória do Lula (e do Brasil), confessando que “não saberia o que poderia acontecer com o país caso o candidato dele tivesse ganhado”. Então a pessoa votou oito vezes nessa família (considerando primeiros e segundos turnos desde 2018), apoiou esse projeto durante anos e, em apenas um dia, reflete a ponto de confessar alívio por seu voto não ter sido o responsável pela tragédia de mais um governo Bolsonaro?
Essa mesma pessoa próxima me contou que um outro amigo, também votante da extrema direita, ligou, bombardeado pelo algoritmo que ele mesmo construiu em seu Instagram, pedindo previsões que lhe trouxessem esperança para seguir seus próximos quatro anos de existência. Não seria um pouco tarde para procurar respostas? De repente, surge a vontade de entender os fatos, desafiar e desconfiar dos algoritmos? E busca justamente daquelas pessoas que se empenharam em virar votos e mobilizar abstêmios a solução para as suas próprias inquietações?
Para mim, essas duas manifestações são o retrato da individualização. Querem a calmaria de volta sem nunca terem aceitado o trabalho pesado de sustentar a democracia.
Imagem criada por inteligência artificial.