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Tal pai, tal filho?

  • Fernanda Galvão
  • 9 de janeiro de 2026
Tal pai, tal filho?

​Ultimamente, além das limitações que já sentia no convívio com grupos específicos, tenho me incomodado muito com a forma como alguns pais e mães tratam seus filhos. Tem sido um exercício constante fazer “cara de paisagem” e não interferir em situações que, infelizmente, acabo presenciando. Para facilitar minha própria compreensão, classifiquei essas observações em diferentes naturezas.

 

​Alimentação e Conexão com o Corpo

​No tema alimentação, a situação mais clássica é a de pais que “seguram” as crianças à mesa, geralmente no café da manhã. Quantas vezes já acordamos sem nenhum desejo de comer? Quando eu era criança, minha fome se manifestava ao longo da manhã, muitas vezes perto do almoço. Lembro-me da gostosura que era receber uma cumbuca de caldinho de feijão fresco antes da refeição principal.

​As crianças conseguem interpretar o que o corpo diz… elas ainda não foram moldadas pela pressa dos adultos, que muitas vezes nos faz esquecer como é sentir fome ao despertar. Simplesmente comemos porque, se não o fizermos naquele instante, nossa janela de oportunidade só se abrirá novamente no almoço. É fundamental validar a saciedade da criança. “Empurrar goela abaixo”, sob ameaça de castigos, é um deserviço a esse serzinho que se tornará um adulto desconectado de suas próprias necessidades. Muitas vezes, os pais superestimam a quantidade que os filhos aguentam ou ignoram o tempo biológico deles. Tornar o início do dia um pesadelo é um erro que afeta a todos à mesa.

 

​A “Fórmula Mágica” das Desculpas

​Uma frase que ouço muito é: “Peça desculpas a ele e dê um abraço”. O que está por trás desse gesto? Frequentemente, a criança que erra é reprimida imediatamente na frente de todos, sem qualquer preocupação com a exposição. Ela perde a oportunidade de ser escutada por quem mais deveria confiar: seus pais.

​Após a repreensão, os adultos apresentam a solução instantânea: a desculpa e o abraço. A criança é obrigada a pedir desculpas mesmo sentindo raiva ou achando que não teve culpa. Tudo é resolvido “à la miojo”, instantaneamente. Do outro lado, a criança ferida é obrigada a aceitar um gesto falso e abraçar alguém de quem, possivelmente, gostaria de se afastar naquele momento. São duas crianças aprendendo um sistema falho de “faz de conta”. Não há escuta, não há distanciamento seguro, não há reflexão, nem verdade.

 

​A Negação da Dor e do sentimento

​Outra situação comum é ver uma criança se machucar e ouvir um adulto dizer imediatamente que “não foi nada” para evitar o choro e a demanda de cuidado. Como saber se não foi nada, se não foi o adulto quem sentiu o impacto? Por que a criança não pode chorar se sentiu dor ou se assustou?

​Já presenciei pais antecipando o choro com repressão: “Não vai começar a chorar, né?”. Acho isso uma violência extrema. É como se não pudesse existir espaço para crianças mais sensíveis que precisam externalizar o que sentem. Ouvir isso dos próprios pais deve ser angustiante.

 

​Permissividade e Abandono

​Há quem não deixe o filho chorar e há quem o deixe bater. Já vi, inúmeras vezes, crianças puxando o cabelo ou chutando os pais sem serem contidas. Em algumas ocasiões, eu mesma precisei intervir, explicando que aquilo machucava e perguntando se a criança queria dizer algo aos pais que, naquele instante, ignoravam a agressão por estarem mergulhados em uma conversa comigo. Essa permissividade pode ser lida como abandono; é como se aquela criança fosse invisível.

 

​A brincadeira e a Regra do Adulto

​Vejo poucos pais dispostos a brincar de verdade com seus filhos. E, entre os que tentam, muitos impõem regras rígidas, orientando como pintar, desenhar ou jogar “melhor”. Corrigem as crianças até em atividades de criatividade. “Filho, não é assim que se joga”. Por que não pode valer o jeito que a criança inventou? Muitas vezes, a descoberta e o improviso das crianças são mais divertidos do que o “jeito certo” do adulto.

 

​Exposição e Justificativas

​É desconfortável quando os pais justificam em alto e bom som que o filho está “chatinho” porque está cansado. A criança lê isso como uma crítica e se sente constrangida diante dos outros. Por que ela não pode estar manhosa se está exausta? Nós, adultos, também ficamos assim, mas não nos expomos justificando nosso comportamento a estranhos.

​No extremo oposto, há pais que justificam toda e qualquer agressão do filho como algo aceitável: “Eu entendo por que você fez isso”. A criança entende que pode ser violenta e que os pais farão o “trabalho sujo” de conversar com quem foi prejudicado, tratando o ato como algo menor. É uma forma perigosa e distorcida de acolhimento.

 

​Violência e Compensação

​Ainda existem famílias que defendem que “um tapinha faz bem”, ignorando os traumas que a violência física gera. Certa vez, uma pessoa me perguntou, em um intervalo de dez minutos, como parar de bater na boca do filho quando ele falava palavrões. É uma tarefa impossível orientar em tão pouco tempo quem elabora saídas violentas para conflitos de comunicação.

​O modelo compensatório também me preocupa: “Se você fizer isso, ganha aquilo”. Pais que premiam a empatia com pontos, transformando virtudes em moedas de troca. Valores como coragem e solidariedade precisam ser estimulados e conversados, mas nunca praticados de forma artificial ou por interesse.

 

​A Sexualização Precoce

​Por fim, a sexualização estimulada pelos próprios pais me preocupa muito. Lembro-me de quando minha filha mais velha, a Tatá, ainda pequena, era questionada sobre “namoradinhos” ou estimulada a achar meninos “gatinhos”. Crianças de cinco anos sendo ensinadas que o outro é alguém para se “pegar” ou um objeto de conquista. Isso retira da infância a sua pureza e ensina valores pesadíssimos cedo demais.

 

*

 

​Eu só aprendo quando tenho dúvidas. A dúvida me faz mergulhar no tema, ler, escutar e refletir. Espero que as crianças de hoje sejam presenteadas com pais e mães menos seguros de suas verdades absolutas; que eles se permitam o papel de aprendizes para que, assim, todos possam evoluir.

 

Foto de Roberto Lee Cortes: https://www.pexels.com/pt-br/foto/alvorecer-amanhecer-aurora-por-do-sol-4027301/