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Umbigo

  • Fernanda Galvão
  • 28 de outubro de 2026
Umbigo

​Umbigo sempre esteve perto de mim, mas já revelo agora mesmo, no início deste conto, que uma de suas capacidades era se mimetizar. Quando perto de mim, nos parecíamos. Quando longe, assumia sua essência.

​Quando conheci Umbigo, não soube “lê-lo”. Ele me pareceu “humanizado”, um espelho de mim mesma. Não sabia da sua capacidade de blindagem. Foram oito anos acompanhando seus passos, próxima, porém nunca junto. A cada passo na trajetória da vida, uma revelação, uma tristeza, uma angústia, uma raiva, um absurdo… Nós dois passamos pelos mesmos fatos históricos, mas, quando sentávamos para conversar, sua leitura e interpretação eram completamente diferentes da minha.

​Cheguei a pensar que eu pudesse ter me quebrado no meio do caminho. Procurei as peças, conferi meus valores e princípios um a um: justiça social, combate às desigualdades, sustentabilidade, justiça climática, laicidade, defesa da ciência, direitos civis e humanos, liberdade expressiva, solidariedade. Estavam todos mantidos e preservados dentro de mim.

​Vimos 700 mil pessoas morrerem durante a pandemia de Covid-19, a banalização da morte, a negação à ciência e à vacina, o desrespeito extremo à dor das pessoas, a liberação facilitada de armas para civis, o dia do fogo, o descaso com os povos originários representados pela desnutrição dos Yanomami, os discursos de ódio, o falso patriotismo, a religião sendo adotada por conveniência e não por convicção, as dúvidas infundadas sobre o processo eleitoral democrático, a invasão dos três poderes numa tentativa de golpe, o plano para assassinar governantes eleitos democraticamente (assassinato também da democracia), prisões, corrupção, mentiras… mas Umbigo sempre tinha uma outra forma de leitura.

​Quando passeávamos juntos, eu ia mostrando as pessoas que ficavam à margem do nosso caminho confortável. Ele não enxergava. Emprestei meus olhos para ele, mas seu corpo os rejeitou como um transplante mal sucedido.

​Mostrei as matas com árvores derrubadas, os bichos sem lar, as chuvas intensas, alagamentos, tornados, secas extremas, mas ele achava que eram efeitos naturais e que nada podia ser feito: “curso da vida” (não seria da morte? eu me perguntava).

​Falei sobre hereditariedade e as futuras gerações, mas ele negava qualquer problema, então meu argumento era inválido.

​Mostrei a diversidade de pessoas amedrontadas pela violência, e ele fez uma piada disso, e se “desculpou” dizendo que a quinta série ainda morava dentro dele. Nesta hora, falei que trabalho com crianças da quinta série e, diferente dele, elas têm noções claras de humanidade, civilidade e respeito.

​Mostrei as mulheres e seus olhos amedrontados, seus corpos e mentes cansados e suas filhas debaixo de suas asas, como forma de proteção… Ele comentou que elas poderiam ao menos se arrumar, usar maquiagem e uma roupa que valorizasse suas curvas.

​Mostrei a fome, a miséria, a escassez… de vida. Ele estava no celular e não prestou atenção.

​A alimentação do nosso intelecto também nos diferenciava. Enquanto eu buscava a mais pura informação, vinda da fonte mais limpa e segura possível, ele se nutria com informação ultraprocessada, empacotada, de fonte questionável, sem rastreabilidade.

​Como nada da atualidade o mobilizava, e não havia como ele relacionar o passado com o presente para planejar os passos futuros, o levei para outros tempos.

Fomos para o Benim, na África, em 1700. Sentimos o medo e o desespero de corpos arrancados de suas terras. Vimos africanos tendo suas vidas transformadas em morte, um pesadelo que durou mais de três séculos. Você entende agora? Entende que o racismo e as cotas de hoje são herança e reparação direta disso?

​Fomos para 1848, nos Estados Unidos, para acompanhar o início do movimento sufragista, e vimos mulheres corajosas lutando por seu direito ao voto e à participação política. Você entende agora? Entende que a misoginia e os números assustadores de feminicídio de hoje vêm dessa mesma raiz que nega às mulheres o direito de existirem e serem livres?

​Fomos para a Alemanha de 1933. Queria mostrar a ascensão de Hitler, os mecanismos frios do fascismo, a derrubada da democracia e o horror do holocausto. Você entende agora? Entende que o negacionismo e o ódio de hoje usam a mesma cartilha daquela destruição?

​Fomos para Minas Gerais, em 1964, no início do golpe militar que violentou as instituições, derrubou a democracia e inaugurou uma época sombria e ditatorial. Você entende agora? Entende que a fúria golpista e os ataques à democracia atual são fantasmas mal enterrados?

​Depois disso, fui eu que entendi. Umbigo é insensível, imutável. E compreendi que preciso concentrar minha energia transformadora em outras ações, e nunca mais tentar mudar quem escolheu não ver.

 

 

Imagem criada por inteligência artificial.